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      ‘Babá moforibalé’ e ‘ibarabô, agô lonã Olukumi’: saiba o significado dos versos em iorubá no samba da Paraíso do Tuiuti
      ‘Babá moforibalé’ e ‘ibarabô, agô lonã Olukumi’: saiba o significado dos versos em iorubá no samba da Paraíso do Tuiuti (Foto: Reprodução)

      Paraíso do Tuiuti vai levar a religiosidade afro-cubana para a avenida; veja o samba A Paraíso do Tuiuti levará para a Marquês de Sapucaí, no carnaval de 2026, um samba que se estrutura a partir de expressões rituais em iorubá, idioma africano preservado no Brasil sobretudo pelas religiões de matriz africana. O enredo “Lonã Ifá Lukumí” propõe contar a trajetória histórica, religiosa e filosófica da tradição de Ifá, desde a África Ocidental, passando pelo Caribe, até sua chegada ao Brasil. O g1 pesquisou e ouviu especialistas para explicar o significado das expressões em iorubá, além de contextualizar o enredo. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Assinado por Cláudio Russo, Gustavo Clarão e Luiz Antonio Simas, o samba usa os versos em iorubá como eixo narrativo e espiritual da obra apresentada pela escola de São Cristóvão. “Por que o samba da Paraíso do Tuiuti tem palavras em Iorubá? Porque o enredo é sobre Ifá, fundamentalmente vinculado à tradição religiosa Iorubá, especialmente forte na diáspora em Cuba”, explicou Simas. O que é iorubá? Embora esteja fortemente associado a rituais religiosos, o iorubá não é uma religião, mas um idioma. Trata-se de uma língua originária da África Ocidental, falada por milhões de pessoas, com gramática, vocabulário e uso cotidiano próprios. O iorubá — forma aportuguesada da palavra yoruba — é falado principalmente na atual Nigéria e em países vizinhos. A língua chegou ao Brasil com milhões de africanos escravizados trazidos à força durante o período colonial. Cartaz do enredo da Tuiuti de 2026 Reprodução No Brasil, o idioma se preservou sobretudo por meio das religiões de matriz africana, como o Candomblé, além de cantos sagrados, nomes de orixás e expressões rituais que atravessaram séculos. O carnaval e as escolas de samba herdaram esse vocabulário simbólico como forma de preservar memória, afirmar a identidade negra e narrar histórias historicamente silenciadas. Ao longo dos anos, o iorubá passou a ocupar a Sapucaí como linguagem simbólica de resistência, ancestralidade e identidade afro-brasileira. No carnaval de 2026, o uso do idioma pela Paraíso do Tuiuti não é ornamental. Segundo a escola, ele funciona como estrutura narrativa do enredo, conectando África, Caribe e Brasil por meio da tradição religiosa e filosófica de Ifá. Expressões rituais Os versos em iorubá presentes no samba da Tuiuti são expressões rituais, e não frases literais do cotidiano. Eles cumprem funções específicas dentro da tradição de Ifá, como pedidos de licença espiritual, saudações, invocações e marcações de etapas da narrativa. Initial plugin text Em um vídeo postado nas redes sociais da Paraíso do Tuiuti, o professor e historiador Luiz Antonio Simas, um dos autores do samba e iniciado há 25 anos no Ifá Lukumí como babalaô, reforça que as expressões utilizadas não são alegorias poéticas, mas chaves simbólicas da história que a escola conta. Logo no início do samba, aparecem os versos: “Ibarabô, agô lonã / Olukumí” A expressão é uma saudação ritual que pede licença para iniciar o canto e a travessia proposta pelo enredo. Agô lonã significa “com licença para passar”, enquanto Ibarabô é uma saudação ligada à tradição de Ifá. Já Olukumí faz referência aos povos iorubás da diáspora no Caribe, especialmente em Cuba. Em seguida, o samba entoa: “Iboru, iboya, ibosheshe” Trata-se de uma saudação clássica da tradição de Ifá. A expressão é usada em rituais e cantos ligados a Orunmilá, orixá da sabedoria e da adivinhação, e representa o desejo de que as oferendas e pedidos sejam aceitos em sua totalidade. Componente da Paraíso do Tuiuti durante ensaio técnico em 2026 Alexandre Macieira | Riotur Outro conceito central é Ori, palavra que aparece na letra como símbolo espiritual. Ori significa cabeça, mas, no sentido religioso, representa o destino, a consciência e o caminho de vida. A ideia expressa no samba é a de que cada pessoa carrega seu próprio destino. A letra também cita elementos fundamentais da tradição de Ifá, como Ifá, sistema filosófico e religioso; Orunmilá, orixá da sabedoria e da adivinhação; ikins, sementes sagradas usadas na consulta, no samba, o caroço de dendê; e odu, os caminhos do destino revelados no oráculo. No refrão, surge a expressão: “Babá, moforibalé” Moforibalé significa "eu me deito aos seus pés” e é considerada uma das maiores expressões de respeito dirigidas a uma divindade ou a um sacerdote. Babá pode ser traduzido como "pai". Para Cláudio Russo, um dos autores do samba, a escolha dessa expressão "moforibalé" foi decisiva na construção da obra. "Eu pedi ao Simas pra trazer algumas cantigas que são utilizadas em Cuba, no culto, e ele trouxe várias. Até que apareceu 'baba, moforibalé'. Quando ele cantou isso, eu falei é essa aqui", disse Cláudio em um vídeo gravado para as redes da escola. Ritmista da Paraiso do Tuiuti tocando uma caixa de guerra Tata Barreto/Riotur Já Eleguá, figura central do samba, é apresentado como o orixá dos caminhos e do movimento, sempre invocado primeiro nos rituais. Segundo Simas, a presença de Eleguá conecta espiritualidade e história de resistência. "Eleguá é Exu, o senhor do movimento, o menino travesso de Olodumare. O senhor das encruzilhadas, o senhor da terceira cabaça", explica Simas. "Eleguá é que inspira as grandes rebeliões anticoloniais dos escravizados lukumis de Cuba, contra os engenhos de cana de açúcar. Sobretudo a rebelião que destruiu o engenho Triunvirato. Moendas quebradas, canaviais queimados e a liderança de uma mulher, Carlota Lukumi", completa o historiador. Nesse contexto, versos como “moenda não pode mais moer” e “põe fogo na cana” evocam diretamente a destruição dos engenhos e a queima dos canaviais, símbolos da luta contra o sistema escravista. Já a referência ao ebó, a oferenda ritual, aparece como sinal de restauração do equilíbrio e superação do sofrimento, sintetizada no verso “o ebó vence a dor”. Tuiuti vai mergulhar na ancestralidade e religiosidade afro-cubana A própria expressão que dá nome ao enredo, “Lonã Ifá Lukumí”, sintetiza o sentido ritual e histórico do samba. Lonã Ifá pode ser traduzido como “caminho de Ifá” e remete à trajetória espiritual guiada por Orunmilá, enquanto Lukumí é a forma como os iorubás escravizados em Cuba passaram a ser identificados, dando origem à tradição conhecida como Ifá Lucumí. No samba e no enredo da Paraíso do Tuiuti, a expressão nomeia a travessia do conhecimento ancestral africano, que cruza o Atlântico, se reinventa no Caribe e se ramifica até o Brasil, mantendo vivos os fundamentos religiosos, filosóficos e culturais da tradição de Ifá. Para Simas, quando o samba é cantado na avenida, o que se estabelece é uma evocação ancestral. “Quando o Paraíso do Tuiuti entoar esse samba na avenida é Exu, é Eleguá que está sendo evocado. E é a lembrança ancestral de Carlota Lucumi, de todas e todos que lutaram nas grandes rebeliões que quebraram moendas e queimaram canaviais e afirmaram a força da vida, diante de projetos de morte”. De acordo com a leitura do enredo, os versos em iorubá não apenas embelezam o samba, mas funcionam como uma chave ritual que conduz a travessia espiritual e histórica narrada pela escola. Lonã Ifá Lukumí O enredo “Lonã Ifá Lukumí” conta a história da tradição de Ifá. A narrativa parte da criação do mundo segundo a cosmologia iorubá, com Olodumare como criador supremo, Orunmilá como testemunha da criação e porta-voz do oráculo de Ifá, e os orixás como forças que regem a vida. A história segue pela cidade sagrada de Ilé Ifé, pela expansão do conhecimento de Ifá por meio dos babalaôs e pela travessia forçada do Atlântico com os iorubás escravizados. Em Cuba, nasce a nação Lucumí, que preserva e transforma a tradição, dando origem ao Ifá Lucumí e à Santería. O enredo destaca episódios de resistência, como a Insurreição do Engenho Triunvirato, liderada por Carlota Lukumí, e mostra como o Ifá se ramificou até o Rio de Janeiro, onde hoje se mantém vivo em comunidades, terreiros e linhagens de babalaôs. Canta Tuiuti Samba-enredo – Paraíso do Tuiuti 2026 Autores: Cláudio Russo, Gustavo Clarão e Luiz Antonio Simas Intérprete: Pixulé Veja a letra do samba na íntegra: Ibarabô, agô lona Olukumí Iboru iboya ibosheshe Canta Tuiuti! Meu padrinho me falou Cada um tem seu ori O destino é professor A raiz é Lucumí Ifá, retira dessa flor os seus espinhos Revela meu odu e seus caminhos Com os ikins de Orunmilá Me dê seu irê para vida Olodumarê criador Espalhou axé e amor No Ilê dos orixás E o negro iniciado no segredo Do reino de Olokun fez sua trilha Rompendo os grilhões de morte e medo Foi o primeiro babalaô da ilha Babá moforibalé, babá moforibalé Orunmilá Taladê, babá moforibalé Eleguá É o dono do poder Moenda não pode mais moer Põe fogo na cana Eleguá Tem mandinga e dendê Hoje o couro vai comer Nas barbas de Havana Ah! O ânimo de ser do baticum Com a lâmina sagrada de Ogum E a sina de quem ama o Idefá Ah! A rama do Caribe se expandiu No verde e amarelo do Brasil Nas cordas do opelê e no oponifá Derruba os muros quem sabe asfaltar Caminhos abertos na mão de Ifá Que o mundo entenda O ebó vence a dor Sentado à esteira de um babalaô